Furia Em Duas Rodas !!hot!! May 2026

Ele ficou ali por dez minutos. Depois, levantou, girou a chave e deu partida. Mas agora, na volta para casa, a moto parecia diferente. Não uma fera. Apenas um veículo. Duas rodas sem fúria.

Na primeira ultrapassagem, cortou um Gol quadrado pela direita, raspando o retrovisor. O motorista buzinou. Bruno ignorou. A velocidade subiu para oitenta, noventa, cem – dentro da cidade, um absurdo. O vento não refrescava; alimentava. A cada giro do acelerador, ele deixava para trás um pedaço da humilhação.

O motorista do Fiesta – um senhor de cabelos grisalhos, óculos de leitura pendurado no pescoço – não o viu. Estava ao telefone, ouvindo a filha dizer que havia passado no vestibular. Ele sorria. Diminuiu mais um pouco, para saborear a notícia. furia em duas rodas

Quando chegou, Marina estava na varanda, o rosto iluminado pelo celular. Ele subiu, abraçou-a por trás e sussurrou: “Vou dar um jeito. No aluguel. No trabalho. Tudo.”

O carro vinha devagar na faixa da esquerda, indeciso, piscando a seta para a direita mas sem ir. Para Bruno, aquilo foi uma afronta. Indecisão era fraqueza. Fraqueza era o que ele sentia ao ouvir os áudios de Marina, ao ver a cara do chefe, ao não poder abraçar a mãe. Ele ficou ali por dez minutos

A chuva começou a engrossar. O asfalto escuro refletia os faróis como uma lâmina molhada. Bruno, porém, não reduziu. A traseira da moto dançou numa mancha de óleo; ele corrigiu no instinto, o coração nem acelerou. A fúria anestesiava o medo.

Veio de dentro.

Bruno viu o pneu do Fiesta a trinta centímetros de sua canela. Viu o olho arregalado do motorista do ônibus atrás do para-brisa. Viu a própria mão no guidão – e notou que ela tremia. Não de medo. De vergonha.


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